terça-feira, 19 de abril de 2011

Mais do Pateta...

Besteira mor ou O menino encontrado

Hoje
S’eu fosse atropelado
Nada de original ocorreria.
Atropelariam um cadáver.
Sim!
Um cadáver que ambula
A esmo e o mesmo.

Acho que já violentei a minha vida.
Perdi a fantasia do existir para um porquê.
Descobri-me morto, mesmo estando vivo.
Percebi que respirar e os et caeteras
Não alteram a situação.

Redundante?
Talvez seja.
Pedante?
Nunca neguei.
Arrogante?
Não, dessa me livrem.

Nada original em minhas conclusões
Rio até brotar pólen de meus olhos.
E se Manuelito fazia versos “Como
Quem morre”.
Entendo que sempre morri Como-quem
Tenta fazer versos.



Três Poetas (ainda) vivos

No assobiar da urina do pássaro,
Na solidez impenetrável do corpo,
A morte conversa e se conserva
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Pois a poesia não morrerá com a carne


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CANDINHO.
Quero os poetas obvios.
Depois deles falarem,
apenas me calo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Uma tirinha politicamente incorreta!


A imagem está estranha porque a fotografei, faltou um scaner...

Créditos: A tira foi produzida pelo Sr. Magnus (se alguém ficar ofendido, deve ir reclamar com ele, hahahaha!).

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CANDINHO
Escalador de buritis-mugibundos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Salvo por mais uma noite


Sábado, noite de sábado, parece que há algo místico neste pequeno pedaço da semana, não é? Momento sagrado para sair, ver amigos, pra conjugar-se carnalmente com a/o parceira(o), ingerir álcool aos galões, ficar de vadiagem pela cidade, dançar até o esqueleto desconjuntar-se, flertar, beijar, fumar, cheirar, feder (isso mesmo, eu não troquei a vogal, FEDER), etc. Mas e se não temos nada pra fazer, se não temos com quem fazer, não temos pra onde ir, nem temos motivo para ir, o que resta da noite sétima? NADA. Sinto que a aflição é bem maior aqui do que em outros dias, pois sabemos de tudo que está a acontecer por aí, e isso acaba potencializando nossas frustrações a um nível quase insuportável. Quem nos salvará de uma noite de sábado frustrada?

Akira Toriyama!

Não é brincadeira, estou falando sério. Sobrevivi a esse anátema graças ao pai de Goku e Arale. Normalmente nunca tenho o que fazer, por isso pensei estar imune à angústia do sábado, entretanto fui acometido por uma sensação muito estranha, parecia que não havia mais nada na terra, mais nada de interessante ou que valesse a pena. Já senti coisa semelhante, mas nunca com tamanha intensidade. Então, busquei refúgio na música, não resolveu; ajoelhei-me diante da literatura, fui nefastamente rejeitado; tentei dormir, o sono escapava pelas dobras do cobertor. Sentado na cama, a ponto de entrar em desespero, resolvi dar uma olhada em minha coleção de quadrinhos (bem pequena, por sinal), e fiquei mais feliz que Diógenes, caso ele tivesse encontrado o tal “verdadeiro homem”, quando vi minha edição de “Nekomajin”. Estava salvo.

Tudo o que precisava estava ali: risadas criptografadas dentro de pequenos quadros impressos em papel! Nekomajin é um mangá recente do criador de Dragon Ball, se não me engano, foi compilado em 2005, e se trata de uma homenagem à saga das esferas do dragão; mas ele trás características dos trabalhos mais antigos de Toriyama - da fase mais cômica e menos “pancadaria” -, como Dr. Slump, Wonder Island, Pola & Roid, Tomato, etc (fora Dr. Slump, todas as demais histórias citadas estão presentes no volume intitulado “Marusaku”). Nas próprias palavras do autor: “Nekomajin é um ser que parece um gato e sabe usar um pouco de magia”. Além disso, o bichano é uma espécie de alterego do Goku, um pouco menos bonzinho, um pouco mais esperto! As situações vividas pelo gato mágico são as mais inusitadas e engraçadas possíveis; só pra deixar um gostinho: imagine uma partida de futebol contra o filho do Freeza (o chatinho, Creeza)!! Com muita simplicidade e competência, o Sr. Akira Toriyama nos agraciou com sua melhor qualidade: a facilidade de fazer humor.

Chorei de rir, lembrei de ótimos momentos e, principalmente, esqueci que era sábado. Foi um grande alívio conseguir sobreviver mais uma noite, ainda mais porque não precisei de nada que não estivesse facilmente ao meu alcance; salvei-me da forma mais válida possível: com gargalhadas. Mas o desespero nunca acabará, pois, inevitavelmente, a próxima noite de sábado se aproxima...


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CANDINHO
Cansado da obesidade de espírito___

CANDINHO

Cansado da obesidade de espírito

quarta-feira, 23 de março de 2011

Recriação. Recreação. Cria! São?

uma criação.

Tudo escuro. Mas tudo mesmo, o Todo escuro. ‘faça-se’ a luz ainda não tinha sido ouvido: era o estado sem criação. Forma e vazio pensavam juntas no Nada, numa coisa descompassada e sem lógica. Soava um som surdo, sonata do vácuo.
Escutava-se, pensava-se, não se falava, não se perguntava. Havia nenhum sujeito. Um mundo indeterminado.
Tudo isso em reação gerou. A criação. Sucumbiu e veio à tona, formando, aparecendo. Nascia o tudo, que para nós parece pouco, mas parece, estava aparecendo, nascendo. Surgiu, no meio disso, o instante e passado alguns nasceu o verbo: se chamava ser, bonito nome, já predestinado a uma função.
Eis que tudo se fez.
Nascia ali também algo que chamaremos de ‘um homem’, não um qualquer, mas, neste caso, o único. Ele era. Seu primeiro pensamento, ou melhor, antes mesmo de pensar ou reconhecer, ele foi; e disse num pensamento ainda sem língua, “eu sou”. Num desenvolvimento intelectual surpreendentemente raro em casos de criação, esse um homem tentou pensar numa outra forma de dizer isso. Outro instante passava. Não conseguiu, mas valeu a tentativa. Sem mais o que poder pensar, resignado, procurou outro algo a que fazer. Piscou, viu. Conseguia enxergar até uma determinada distância, a partir da qual não se permitia a visão. Achou-se, então, inútil, criação boba, até se houvesse a palavra ‘verme’, que a nós mundanos muito é útil, ele se compararia a um desses. Na impossibilidade, achou-se limitado.
Chorou, compulsivamente; as lágrimas jorravam de seu rosto numa melancolia jamais vista ali. Era um homem que chorava, quê importa, não se institucionalizara o julgamento naquelas bandas ainda. Podia chorar, não podia não chorar. Num ato de desespero, passou a mão pela cabeça, entre os cabelos, estando de joelhos.
Sentiu: foi a sua primeira vez.
Interrompeu a choradeira. Fazia um homem a sua primeira descoberta: si-mesmo. Já teria ouvido falar disso? Não, cremos que não. Achou estranho que, mesmo não se enxergando, sabia de si, cria na sua existência, ele, teoricamente, era. Sorriu bestamente por isso. Decidido, achando-se dono, pôs-se em pé, levantou. Seu primeiro grande feito: abstraia o objeto de sentir. Sentiu poder.
Assim ele quis reparar o exterior e viu as coisas - que não sabemos quais, por essa razão as chamamos coisas – e nelas uma forma. Esticou, então, o braço, com a palma da mão para cima. Num ato possessivo, fechou a mão, como os heróis fazem, em demonstração de poder. Mostrou-se poderoso, um homem poderoso. Prepotente, tentou falar, o que, obviamente, logrou. Fechou os olhos, em repúdio àquela fraqueza.
Por fim, se constituía a última das propriedades daquele mundo, o movimento, que veio brotado de uma força estacionária. Tão forte fora sua chegada que o um homem foi impelido a andar, sem mesmo saber os conceitos físicos de ação e reação. A nós resta a dúvida se havia ali um chão: também somos limitados em nossos conhecimentos sobre esse mundo.
Desestabilizado, o um homem caiu, diferentemente. Enquanto ele era derrubado pelo movimento, aquele mundo se abalou e o instante sofreu uma instabilidade, sucumbiu , o que fez com que aquele ser ficasse caindo, caindo, caindo... Sem instante, não havia espaço e uma desarmonia intensa afligiu aquele lugar: Choveu, e isso era a primeira coisa que mostrava a independência entre ele e o território. Caindo, sem espaço, um homem sequer pode pensar. Quando, pois, o primeiro pingo de chuva tocou o seu corpo, o instante refez-se e o espaço se perdeu, comprimindo-se e aglutinando tudo. Mais um-momento-e-meio e o Tudo se desfez, perecendo também um homem, que só teve o tempo de pensar, sem ainda sequer uma língua para se expressar: “Sou?”.
Nós desconhecemos, ainda, as últimas palavras de um homem
[...]

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Andrius, o romanceiro introspecto.
"A fantasia do café que havia esfriado"

domingo, 13 de março de 2011

Novos Favoritos

Teve então um sonho: Uma escada se erguia da terra e

chegava até o céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela

Gênesis XXVIII, 12



Detesto falar em “prediletos”, pois nunca funciona, somos muito volúveis, mudamos as preferências constantemente, a única diferença é que alguns admitem sua volatilidade, outros se congelam previamente, salvaguardando-se da obrigação de reconhecer que mudaram.

Meu autor favorito é exatamente aquele que estou lendo no momento, é claro, não sou tão suscetível, mas se o livro em minhas mãos me empolga, o seu respectivo escritor se torna meu cânon máximo, instantaneamente. Pode parecer besteira, mas é assim que me entrego à literatura, sem muitas restrições.

A bola da vez é Fitzgerald. Francis Scott Fitzgerald. Mas não o d’ “O Grande Gatsby” (romance que li há muito tempo, e do qual não guardei nenhuma impressão forte; a “revisita” está se fazendo necessária). E sim o dos contos “O menino rico” e “A escada de Jacob”. Principalmente pelo último, embora o primeiro texto também tenha me impactado.

Não vou me estender tentando analisar/explicar o conto, quem quiser que o leia, e tire suas próprias conclusões. Apenas faço referência a ele para ajudar a entender porque certos autores nos fascinam tanto. No meu caso, se não estou redondamente enganado a meu respeito - o que acontece regularmente -, uma das coisas que mais chama a atenção é a capacidade do narrador para criar ambientes e atmosferas envolventes. Principalmente quando consegue tal efeito sem abusar das descrições enfadonhas, responsáveis por tornar qualquer texto chato e truncado.

Pude sentir a profundidade dos detalhes, dividir com Jacob cada nova emoção, compartilhar de sua sina, do começo ao fim da narrativa. Quão grande é Fitzgerald! Quando acabei de ler seu conto tive ideia de sua imensidão. Agora ele é meu autor predileto, não posso fazer nada para mudar isso.


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CANDINHO
Mais uma prece desperdiçada.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Pedras por Poemas


Quando lemos um poema com atenção, ficamos imaginando se ele possui alguma lógica interna, ou se somente não passa de uma mera antologia de termos desconexos. Será que somos enganados por esses malditos espertalhões, ditos poetas, que juntam um bocado de palavras e nos entregam como peças literárias, será que não nos vendem um bom punhado de pedras por poemas?

Em vários momentos cometi o grave delito de pensar assim. Pensei nos poetas como enganadores. Não percebia nos poemas nada que indicasse um sentido, que me ajudasse a lê-los com prazer, nada ali que me sugerisse qualquer caminho. Muito ao contrário, a porcaria do caminho estava atravancado de pedras, a passagem estava bloqueada por obstáculos intransponíveis; minha angústia não era pouca, confesso que fiquei a ponto de lançar a toalha. Ainda bem que não fiz isso.

Continuado o percurso, dei de frente com mais algumas pedras, mas elas não me impediram de caminhar, inversamente, fizeram com que eu refletisse a respeito da arte poética. Sim, admito, as novas pedras também deram - e dão - trabalho, porém, cada vez que penso nelas, que olho para elas, percebo o quanto estava enganado.

João Cabral de Melo Neto queria uma poesia lapidada da pedra, uma linguagem inspirada em sua voz “enfática, impessoal”, como ele menciona em “A Educação Pela Pedra”; poema duro, pesado, em um primeiro momento pode até ser considerado ininteligível. No entanto, sem medo de nos perdermos, observemos a lição da pedra, a lição de Cabral de Melo Neto; vamos ler a pedra que nos atravanca o caminho, a mesma que nos enche a boca quando queremos falar de coisas que não entendemos; existe até o confronto entre duas pedras, todavia, ambas nos remetem à outra, habitante de imaginário diverso.

Agora estamos parados “No meio do Caminho” de Carlos Drummond de Andrade, e a sua pedra parece mais simples do que as de Melo Neto, mas não é. Percebo-as como pedagogas do viver, na verdade, muito mais do que isso, são a matéria do existir e de tudo em que consiste a vida

Com a pedra construímos nossas casas e prisões, nossos muros e monumentos. Também erigimos obras poéticas a partir da matéria bruta, esta talvez metafísica e impalpável, mas tão rígida quanto aquela. Drummond sempre teve a pedra em seu caminho - como conta com as seguintes palavras: “Nunca me esquecerei desse acontecimento/ Na vida de minhas retinas tão fatigadas,/ Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra...” - , e fez uso dela para pavimentá-lo, apropriou-se de sua maleabilidade para transformá-la em sublime arte.

Poesia pode ser pedra, agora me dou conta disso, ela também é capaz de ser lançada em nossa direção, só precisamos deixar com que nos acerte bem no meio da cabeça, e pronto, estaremos derrubados, porém, preparados para dela aprender e usufruir, notando sua real leveza, embasbacados com sua inconcebível fragilidade.

Por mais que a poesia possa, em dado momento, ser pedra, aquele velho aviso impresso nas caixas será sempre válido: HANDLE WITH CARE!


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CANDINHO - Piá Gengibirra.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Crianças

Lembro-me que o meu maior sonho quando criança era ser jogador de futebol. Peço desculpas pelo lugar-comum, mas até mais ou menos os quinze anos tive a esperança de fazer um teste em algum clube grande, Atlético, Coritiba, ou qualquer outro, passar, e realizar meu sonho.
Astronauta, Médico, e até ser um daqueles empresário ricos, podres de ricos, que não têm mais lugar para colocar o dinheiro que ganham. Queria sempre ser alguém rico, importante, famoso. Sonhos, por vezes é melhor não tê-los, quando nos tornamos adultos vemos o quanto são difíceis de realizarmos essas aspirações infantis. Sonhos, muitas vezes é gratificante termos eles, além de passamos horas e horas criando histórias que nos façam percorrer desde o início até o final dessas conquistas, ainda nos vemos fazendo realizações que poderiam mudar o mundo num piscar de olhos. É mágico!
Cresci, fato do qual não pude fugir, uma vez ouvi alguém falando (acho que é quase um ditado popular) "quem não morre, envelhece". Não sei porque guardei isso comigo, se essa é a maior de todas as verdades que temos de enfrentar durante nossas mesquinhas vidas humanas. Mas, além de envelhecer, comecei a ver que alguns sonhos foram se desmoronando devido às circunstâncias da vida, outros, eu mesmo fui desmanchando, porque quis. Normal, todos fazemos isso, o tempo todo, sempre mudamos de discurso, e acho que essa é uma das artes que as pessoas fazer de melhor. O gente instável nos seus pensamentos! Comigo não foi diferente. Logo cedo desisti da ideia de ser astronauta. Se eu quisesse ir para o espaço, que fosse rico e pagasse passagem! Era isso, ser rico, fui pela mais fácil (porque na minha cabeça tudo era muito lógico) me torno rico, e pronto! Contudo, eu não era inteligente o suficiente para ser alguém de sucesso, e muito preguiçoso para ser alguém rico pelo esporte. Nem era muito bom no futebol!
Crianças...sempre sonhando. E claro, todas sonham, todas precisam sonhar, e brincar através desses sonhos, desafiar cada dia mais suas imaginações sem nem saber que o que fazem é mágico. Ficar horas brincando num terreno baldio entre canos de esgotos abandonados fingindo uma guerra. A terceira guerra mundial! quem sabe? Imaginam muito, não pedem nada em troca, apenas o direito de brincar. Certamente umas abortam suas infância cedo, por questões financeiras. Certamente outras prolongam suas infâncias por questões educacionais. Mas todas são, ou foram criança, e quem já viveu essa experiência sabe que, só por essa época, já valeu ter vivido!
Há crianças de todos ou tipos, todas as raças, em todas as nações. Esse universalismo que se compra na grande mídia todo mundo conhece. E, realmente, isso é uma verdade. Porém, mais triste do que pensamos. Compramos uma imagem até bonita, pagamos até muito bem por algo podre! Muito podre! Mas não no sentido mais profundo da palavra podre, mas num dos seus sentidos, num dos seus milhares de sentidos, acho até que num de seus sentidos mais desesperadores. Mas vamos ao que realmente interessa!
Era tarde, lá por umas seis horas da tarde. Foi um dia de muito sol, e a tarde estava bonita, com aquele céu claro de uma cidade num final de tarde. Tinha levado minha namorada para um tubo de ônibus perto da rodoferroviária. Comecei a retornar para a faculdade, subindo calmamente a avenida Sete de Setembro, pensando nos meus problemas (eu acho que estava pensando neles, sempre que estou sozinho faço isso). Eis que mais à frente começa a andar do meu lado, mas na pista de asfalto, um desses carrinhos de catadores de papel. O carrinho estava vazio, aliás, tinha alguns papeis, mas era muito pouco. O que chamava a atenção era um piazinho, devia ter de 3 a 5 anos, no máximo, que estava na parte de trás do carrinho. Brincava sozinho, sem muitos brinquedos, e eles eram alguns pedaços de papéis e cordas, que serviam para amarrar os pedaços de papelão. Se havia algo mais, não me lembro. Tampouco me recordo do que era a brincadeira, apenas entendi que aquilo era uma brincadeira porque certas expressões de criatividade e alegria infantis são, deveras, universais.
A felicidade do meu observado não era pequena até aquele momento. De repente passa um carro na rua, para do lado do carrinho, dois homens, um deles joga pra dentro do carrinho um pacote do salgadinho já pela metade. Naquele caso meio cheio. Então alguns homens que trabalhavam num posto de gasolina gritaram:
- Pega! É pra você!
O carrinheiro (espero que esse seja o nome certo!) devia ser o pai do garoto, olhou para os frentistas atrás dele, para os homens dentro do carro, agradeceu-os, e numa mistura de felicidade com rispidez (que me parece ser típico de pai) falou para o filho:
- Pega aí! Pode comer.
Os frentistas, eu, e talvez o motorista e o passageiro do carro, vimos o garoto largar tudo e ir comer. Ouvi barulhos que lembravam comemorações no posto. Ouvi o carro ir embora (espero que eles também tenham visto a cena!). E quase me vi feliz, mas numa angústia grande. Feliz pela cena que tinha acabado de se passar na minha frente. Por notar que há, sim, (eu também odeio esse chavão, mas vou ter que escrever!) esperança nos seres humanos. Eu diria até menos, que eles ainda, pelos menos ainda, têm um pouco de bom-senso ajudar seres frágeis que precisam ser ajudados. Mas a minha angústia vinha de algo maior, bem mais interno. Eu era um espectador, o mais legítimo de todos os espectadores daquela cena. Os frentistas participaram, tiveram a iniciativa de dar um pacotinho (meio cheio) de salgadinhos. Gesto simples, mas útil. Os dois homens do carro tiveram a boa vontade de serem os "entregadores" do(digamos aqui) "presente", sem dúvidas um bom gesto de caridade. O carrinheiro, não é preciso muito para falar de sua importância. Pai, trabalhando, carregando o filho como podia, e ainda abriu um sorriso quando viu o filho receber o presente. Tamanha felicidade que vi naquela cena só poderia se passar entre um pai e um filho. E além do mais, se não fosse o pai que quisesse ter passado por aquele rua, naquele momento, eu estaria, talvez, escrevendo um texto sobre "O brilho do sol numa final de tarde no centro de Curitiba". Pode-se dizer que ele teve uma grande importância em toda essa narrativa. Eu, contudo, não tive outro papel a não ser o de observador.
O que fazer? Em que poderia eu ajudar? Bom, comecei a pensar em várias coisas que existem, e que faltam, na nossa sociedade para que uma cena daquela ocorresse. Mas isso não intessava antes, nem interessa agora. Esse não é umm texto com um intiuito político. Por um momento quis limpar todos esses pensamentos mesquinho (mandá-los à merda!) e admirar a cena que estava vendo. O piazinho, feliz, comendo seu presente. De vez em quando olhava para mim, eu de vez em quando tinha que para de olhar para ele. Que futuros ele irá ter, ou mesmo se ele irá ter um futuro, eu não sei. Provavelmente não vou saber. Aquela cena só me fez poder observar que para o meu protagonista a felicidade se realizava com pequenas coisas. Não indaguei, nem vou indagar mais nada sobre ele. Já me disseram que às vezes nós queremos mudar a realidade de uma pessoa, mas elas são felizes do que jeito que estão. É verdade, e além do mais, seria um erro noisso interferir no livre arbítrio da pessoa. Sei que aquele menino não escolheu nascer filho de um carrinheiro, mas ele pode ter aprendido a ser feliz com a vida que seu pai lhe ofereceu. Pode nunca quere mudar isso. O que realmente importou em tudo isso foi a comprovação que essa universalidade da Infância é um dos melhores estados de espírito do ser humano, acalma, relaxa, nos faz aproveitarmos o que o mundo nos oferece (ou seja, nos faz saber vivermos o nosso mundo). Que comer salgadinho com a mão suja não é proibido por todos os pais, e que isso pode ser a tal felicidade.